Polícia indicia militante do PT por ataque a jornalistas do Correio

Resultado de imagemLaudo do Instituto de Identificação da Polícia Civil — o qual reconheceu as digitais do petista no carro da reportagem.
A Polícia Civil do Distrito Federal indiciou por dano qualificado e atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública o suspeito de depredar o carro do Correio Braziliense, além de ameaçar fotógrafa, repórter e motorista da equipe. O ataque ocorreu em 5 de abril, durante ato realizado em frente à Central Única dos Trabalhadores do DF (CUT-DF), no Conic. Foi nesse dia que o juiz federal Sérgio Moro decretou a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado a 12 anos e 1 mês de prisão pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do tríplex do Guarujá.

 
A investigação foi realizada pela Divisão de Repressão ao Crime Organizado da Polícia Civil (Draco), da Coordenação de Combate ao Crime Organizado, Crimes contra a Administração Pública e contra a Ordem Tributária (Cecor). Agora, cabe ao Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) oferecer a denúncia à Justiça. A Draco apontou o militante do PT Saulo Antônio Dias dos Santos, 31 anos, como o responsável pelos crimes. O indiciamento baseia-se, principalmente, no laudo do Instituto de Identificação da Polícia Civil — o qual reconheceu as digitais do petista no carro da reportagem — e em relatos registrados na ocorrência. Formado em administração e com especialização em gerenciamento de projetos, ele não tem antecedentes criminais.
No mesmo dia do ataque ao carro do Correio, Saulo convocou, pelo Facebook, simpatizantes do petista a participarem de novo ato “pela defesa de Lula e em defesa da democracia”. Essa manifestação ocorreu no mesmo local da intimidação aos jornalistas. “Você que ainda acredita na democracia e quer uma Justiça sem partido venha para a rua. A prisão do Lula é contra todos os trabalhadores e pobres deste país. Não podemos aceitar calados. Vamos manifestar nossa indignação. Lula preso político”, escreveu, na publicação. Em outra postagem, ele comentou: “Agora é desobediência civil”.

Cargos públicos
 
Presidente da zonal do PT de São Sebastião, ele é filiado ao partido desde 2007. Nas redes sociais, mostra-se engajado à militância. A foto de perfil do Facebook é um clique ao lado de Lula, como diversas outras registradas no álbum. Em 21 de abril, viajou a Curitiba, no Paraná, onde está preso o ex-presidente, para prestar solidariedade, conforme mostram imagens postadas na rede social.
 
Saulo participou do Executivo local à época da gestão do ex-governador Agnelo Queiroz (PT), ocupando cargos na Secretaria da Criança, desde o início do mandato, em 2011. Os dados do Portal da Transparência, contudo, detêm informações apenas a partir de 2013. Naquele ano, ele recebeu, em vencimentos, R$ 67.360,84 da administração pública. Em 2014, as remunerações ficaram, ao todo, em R$ 35.393,54, porque o petista trabalhou somente entre janeiro e julho.
 
Antes disso, Saulo havia prestado serviço em gabinetes da Câmara dos Deputados — entre eles, dos ex-parlamentares Geraldo Magela (PT) e Fredo Júnior (PCdoB). Em 2014, concorreu a uma vaga na Câmara Legislativa, mas conquistou 1.460 votos e ficou como suplente.
O ataque ao carro do Correio ocorreu no início da noite de 5 de abril, quando 30 manifestantes partiram para cima do veículo e quebraram, aos socos, os vidros traseiros. Dentro do automóvel, havia três profissionais, que não se feriram. Os militantes gritaram ofensas contra a imprensa, contra o jornal e em defesa de Lula, que teve a prisão decretada menos de 24 horas após o Supremo Tribunal Federal (STF) negar o pedido de habeas corpus.
 
Pouco tempo depois, a equipe de reportagem do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) também foi alvo da fúria dos manifestantes. Os profissionais foram cercados em frente à CUT-DF e expulsos logo em seguida. Ocorrências de atos hostis à imprensa também foram registradas em protestos em São Bernardo do Campo (SP), onde uma jornalista da Rede Bandeirantes e um fotógrafo foram atingidos por ovos ao registrarem o entorno do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Naquele dia, sindicatos e associações emitiram notas de apoio às equipes de reportagem.
 
Ao Correio, Saulo alegou que “não participou de qualquer ato de violência ou depredação”. “Aproximei-me do carro para dar fim ao tumulto. Fui lá com a intenção de ajudar. Tenho provas de que tentei fazer o melhor. Por isso, estou tranquilo”, garantiu.
 
O Correio ligou diversas vezes para a presidente do partido no DF, deputada federal Erika Kokay, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O distrital Chico Vigilante, um dos fundadores da sigla no DF, não quis se posicionar sobre o caso.
 
O que diz a lei
O artigo 265 do Código Penal define como crime atentar contra a segurança ou funcionamento de serviço de água, luz, força ou calor, ou qualquer outro de utilidade pública, como a imprensa. A pena é de reclusão de 1 a 5 anos e multa. O artigo 163 prevê detenção de 6 meses a 3 anos e multa, além da pena correspondente à violência, para quem praticar dano qualificado. Ou seja, destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia, com violência à pessoa ou grave ameaça. 

 

Um jornalista agredido por dia
 
Dos 38 assassinatos de jornalistas no Brasil nos últimos 12 anos, nem a metade foi esclarecida. Dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) indicam que apenas 10 desses tipos de crimes alcançaram um desfecho na investigação. Com relação às situações de violência sofridas por profissionais de imprensa no país no ano passado, os dados apontam 82 casos de agressões e ferimentos envolvendo a categoria.
 
O balanço foi apresentado durante o seminário que debateu a violência praticada contra jornalistas e profissionais de comunicação, realizado ontem pelo Conselho de Comunicação Social (CCS), no Senado. “Enquanto houver violência contra um jornalista que for não podemos tolerar. É um ataque à liberdade de imprensa”, resumiu o presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Paulo Tonet Camargo.
A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, apresentou o balanço, mostrou quem são os agressores e explicou como o perfil dos acusados muda ao longo dos anos. Em 2013, quando ocorreram manifestações populares no Brasil, registraram-se 181 agressões a jornalistas, de acordo com a dirigente da Fenaj. No ano passado, houve 99 casos. “Foi uma redução bastante significativa, mas estamos em alerta. A cada dia, um jornalista é agredido”, disse.
 
Segundo Maria José, até 2013, os profissionais de imprensa eram perseguidos principalmente por políticos e assessores incomodados com notícias desfavoráveis. Depois disso, policiais e manifestantes passaram a ser os maiores responsáveis pelos ataques. “Os jornalistas se tornaram vítimas daqueles que estão protestando, independentemente se são de direita ou de esquerda”, explicou.
 
A dirigente da Fenaj apontou como causas da violência contra a imprensa situações como as de despreparo da polícia, autoritarismo e até tradição de violência de políticos, descaso de empresas de comunicação com relação aos protocolos de segurança dos profissionais e incompreensão do papel desempenhado pelo jornalista por parte da sociedade. “A impunidade é o combustível da violência”, enfatizou Maria José.
 
Paulo Tonet disse que os crimes contra jornalistas ocorrem em todo o país. Segundo ele, apesar da queda de 52% no número de casos não letais verificados em 2017 em comparação ao ano anterior, não se tem o que comemorar. O Brasil, de acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras, ocupa a 102ª posição entre os países com menor liberdade de imprensa, entre 180. “O arcabouço legal e constitucional não é suficiente para garanti-la”, afirmou. “Verificamos uma intolerância com opiniões contrárias. Nunca o jornalismo foi tão relevante”, advertiu o presidente da Abert.
 
O presidente da Federação Nacional das Empresas de Rádio e Televisão (Fenaert), Gulíver Augusto Leão, leu os nomes de 12 radialistas assassinados e classificou como alarmante o número de ataques no país. “Os profissionais estão sendo proibidos até de se aproximar de manifestações. A imprensa é apenas a mensageira de notícia, de fatos, mas o que vemos é a imprensa sendo colocada como vilã”, argumentou.
Soluções
 
A diretora de Redação do Correio, Ana Dubeux, ressaltou a importância de campanhas educativas —  definidas por ela como “transformadoras” — a exemplo da Paz no Trânsito, liderada pelo jornal e abraçada pela população. Dubeux acrescentou que a intolerância e a falta de compreensão quanto ao papel do jornalista explicariam os ataques à categoria. “A nossa principal missão é informar e não agradar. Muitas pessoas querem ser aplaudidas. Essa não é nossa função. Buscamos a verdade dos fatos. Sem liberdade de imprensa, a democracia não existe”, disse.
 
O presidente do Conselho de Comunicação Social, Murillo de Aragão, que conduziu o encontro, ressaltou que o colegiado trabalha para buscar soluções. O seminário reuniu também o coordenador de Comunicação e Informação da Representação da Unesco no Brasil, Adauto Soares; o secretário jurídico adjunto da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Rádio, Televisão (Fitert), Josemar Pinheiro; e o presidente da Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abratel), Márcio Novaes.
 

Leave a Reply